Talvez a rádio necessite de tornar-se mais inspiradora, num contexto em que a variedade de ofertas mediáticas não cessa de crescer
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Opinião
Singuralidades radiofónicas
12 de fevereiro de 2016
 

por PAULA CORDEIRO

Em 2012 a UNESCO proclamou o Dia Mundial da Rádio, para ser celebrado a 13 de fevereiro, dia em que as Nações Unidas lançaram a United Nations Radio, em 1946. É, por isso, uma data importante. Mas não apenas por esta razão. É o dia, no ano, em que a rádio ganha outra voz, que amplia o seu som e se torna escrita, na imprensa, ou imagem, na televisão. Mesmo numa altura em que a rádio não se pode definir apenas pelo som, quando pensamos na rádio não consideramos, no imediato, este outro lado da rádio que ganha cada vez maior preponderância. É multimédia e interativo. Difícil de definir.

Em 2016 o Dia é dedicado à Rádio em situações de emergência e catástrofe. Porque é nesses momentos – não só, mas especialmente – que a rádio fica aos comandos das comunicações, ultrapassando a rede das redes e a sedução da imagem. Consegue chegar onde outros meios não chegam, de forma rápida e quase universal. Por isso, a rádio será sempre aquele meio que, por mais que anunciem a sua morte, estará sempre vivo.

Não faltam temas ou ideias para marcar este dia. Independentemente daqueles propostos pela UNESCO, que em outros anos abordaram as questões de género, promovendo o papel da mulher na radiodifusão, ou a liberdade de expressão, importa pensar a rádio e o seu papel social. Porque esse papel vai muito além da música que se escuta ou da programação de entretenimento, é importante não esquecer a ligação entre os diferentes membros da sociedade que a rádio, talvez mais do que os outros meios de comunicação social, maximiza. Aqui, nos grandes centros urbanos, onde se produz a maior parte da rádio que se pode ouvir em todo o país, nem sempre pensamos naqueles que escolheram a rádio para sua companhia ou nos que, por força da sua atividade profissional, não podem ligar-se à web e navegar na multiplicidade da oferta. Ficar, simplesmente, a percorrer o Facebook para descobrir o último vídeo que nos faz doer a barriga de tanto rir. Nunca será o último, porque a rede tem essa capacidade única de autoalimentação. Outros que não sabem – ou não querem saber – utilizar estas novas ferramentas e plataformas, nas quais a rádio também está. Universalizando o acesso, mas apenas para os que podem e sabem usar, não o esqueçamos.

Talvez a rádio – a radiodifusão, no seu todo – necessite de tornar-se mais inspiradora, num contexto em que a variedade de ofertas mediáticas não cessa de crescer. Mais importante, tornar-se indispensável no seio dessa oferta. Em vez de pensarmos sobre o que é a rádio, talvez devêssemos olhar para a rádio e a sua relevância no contexto dos meios de comunicação em geral. Encontrar, no que a diferencia, a sua efetiva singularidade. Na verdade, o que se verifica é que à generalidade do público não interessam definições. Interessa-lhe a oferta. O que ouve. Que, por vezes, tem pouca relação com a vida quotidiana da audiência. Ou apenas com alguma audiência.

O cenário de media em que a rádio hoje se situa é de extrema complexidade. Até há duas décadas, o maior problema da radiodifusão era o de transformar a complexidade técnica da emissão de rádio numa oferta de fácil acesso para a audiência. Rodar o botão e poder ouvir a emissão de rádio. Hoje, o processo técnico é o aspeto mais simples de todo este processo de comunicação, com audiências tão fragmentadas e dispersas. A população tem características diferentes, fruto dos processos de urbanização e concentração das populações em grandes centros urbanos, mas também da digitalização e da forma como permite à audiência navegar e descobrir. Não nos esqueçamos de quem está fora dos grandes centros urbanos. De quem não se modernizou e continua a depender da rádio.

A questão que se coloca não é nova e assume cada vez maior pertinência: ainda precisamos da rádio ou podemos substituí-la por podcasts e outras experiências sonoras? Precisamos. Mas também precisamos de atrair novas gerações à rádio. Estas apaixonam-se com facilidade, mas encontram portas fechadas para aprender, experimentar, para se profissionalizarem. Os outros, andam por aí e só param numa sintonia quando esta lhes entra pelo carro dentro. E os outros, que só usam o seu smartphone? Como nos outros setores, a epidemia dos estágios anula a possibilidade  de a rádio se reinventar, mudar por dentro sem, contudo, esquecer aquilo que nunca deixará de ser: a palavra que nos acompanha, educa e entretém.




Paula Cordeiro

Provedora do ouvinte na RTP

Professora de rádio e media digitais no ISCSP

 
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